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Sumário  Edição 15
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Reportagens
 
Os jovens dançarinos dos senhores da guerra
Os homens do Afeganistão, fissurados por bombas e esportes sangrentos, sempre pareceram machões até os ossos. Então como entender esta tradição secreta deles, na qual garotos se vestem de mulheres e dançam para quem controla dinheiro e armas?
Texto Joanie de Rijke/IFA Fotos Imal Hashimi/IFA

Garoto se apresenta numa festa de bacha baazi: proibido pelo Islã

Jawid, 30 anos, era comandante de um esquadrão mujahideen [plural de mujahid, alguém que luta na guerra santa, a jihad] na província de Balkh, norte do Afeganistão, não muito longe de Mazar-e-Sharif. Durante um bom tempo, ele liderou uma milícia contra o Talibã. Hoje, leva uma vida mais tranquila. Possui uma vasta porção de terra na vila onde mora. É o tipo de cara que se importa com respeito e status. Está ansioso para falar conosco sobre o fenômeno bacha bereesh - festas privadas nas quais garotos dançam com vestidos coloridos, cordões dourados, sinetas nos pulsos e tornozelos, cabelos brilhantes e pó de arroz cobrindo seus rostos ainda sem barba. São jovens que rebolam e se reviram, muitas vezes contra a vontade, mas sempre admirados com grande interesse pela plateia, toda formada por homens.

Bacha fica constrangido e chora ao saber que será fotografado

"COLOQUEI O
REVÓLVER NA
CABEÇA DE UM
'DONO' E ROUBEI
SEU GAROTO"

Jawid, ex-comandante militar

O "jogo com garotos" - tradução literal de bacha baazi - é na verdade um culto ao macho. Numa sociedade onde meninos só podem brincar com outros meninos, as mulheres são vistas como uma coisa atrativa, porém estranha. Você não sai para se divertir com elas. Em algumas províncias do norte do país, elas não podem nem estar presentes em reuniões sociais. Enão podem dançar. Homens podem. Mas também é parte da tradição afegã que a noite vá além da dança. Os bacha bereesh fazem sexo com seus "donos", os kaatah, normalmente ex-combatentes de alguma milícia que ainda possuem dinheiro e poder.

Jovem é maquiado e se veste como mulher: vergonha

Ameaças e suborno

O público das festas é exclusivamente formado por homens

O ex-militar Jawid se lembra bem de como conseguiu seu primeiro bacha. "Numa noite, vi o menino dançando. Ele era incrivelmente bonito, não consegui tirar os olhos. A festa acabou pouco antes da meia-noite. Fui antes para o pátio, enquanto os outros ainda estavam na sala. Fiquei escondido do outro lado da rua. Quando o garoto e o dono saíram, eu ataquei. Coloquei um revólver na cabeça do kaatah e forcei o bacha a vir comigo. Então passei um mês numa caverna com ele. Ninguém podia nos achar. Esse exílio foi também uma ótima oportunidade de nos conhecermos melhor. Uma vez que ficamos íntimos, levei-o para casa comigo. Fiquei com ele um ano e meio."

O segundo, ele subornou. Era outro jovem. "Dei dinheiro a ele, por intermédio de seus amigos. Assim ele poderia comprar cigarros e outras bobagens. Chegou um ponto em que ele começou a gostar de ter um pouco de dinheiro extra. Então, ficou curioso e quis me conhecer. Levei-o a uma festa e disse a ele que poderia dançar também, se quisesse. Falei que poderia morar comigo. Eu pagaria tudo - roupas, comida. O garoto era pobre e concordou", relembra.

"O GOVERNO QUER COMBATER OS ABUSOS, MAS ESSES EX-CHEFÕES DA GUERRA AINDA TÊM ARMAS E PODER; MUITAS VEZES SOMOS INTIMIDADOS"
Chefe de polícia afegão

Jawid não vê nenhum abuso no fato de roubar garotos usando armas de fogo, ou lançando mão de suborno. "Porque nunca um garoto ficou comigo contra sua vontade. Sempre cuidei muito bem deles. Nós conversamos, damos risadas, jogamos cartas. Enfim, nos tornamos amigos. Meus bachas estão sempre felizes. Minha mulher e meus filhos já se acostumaram com isso - com o fato de eu ter um rapaz. Não que ela deva palpitar na questão, claro. Isso aqui é Afeganistão. Se o garoto quiser roupas novas, eu dou; minha esposa não tem direito de interferir."

Mas o próprio Jawid foi vítima desse método. "Perdi dois garotos porque ex-comandantes roubaram de mim. Eram meninos muito bonitos. Os combatentes começaram a papear com os bachas e no final da noite foram se esfregar com eles. Não permiti. Brigamos, e eu perdi."

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