Ofício dos ossos
Entramos no mercado-negro de esqueletos da índia, de onde saem ilegalmente milhares de ossadas para médicos e faculdades do mundo todo estudarem o corpo humano. depois fomos a um cemitério de são paulo, para checar se esse crime é exclusividade indiana, e adivinha o que descobrimos?
fotos e texto por Scott Carney
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Crânio apreendidos na provincia indiana de Bengala Ocidental |
Um policial com a camiseta manchada de suor estica um pano sobre o chão enlameado. Com um tranco, ele abre a porta de trás de um furgão - que funciona como armário de provas criminais para a polícia do estado indiano de Bengala Ocidental. Cerca de uma centena de crânios humanos caem sobre o tecido, fazendo um som oco ao bater no solo. Quase todos perderam os dentes no caminho, enquanto vinham quicando na traseira do camburão. Perto do veículo, o oficial sorri e deixa escapar um grunhido de satisfação. "Agora você pode ver como o negócio dos ossos é grande por aqui", diz. Eu me agacho, pego um crânio e seguro próximo ao nariz. Tem cheiro de frango frito.
Arranjar um esqueleto, em qualquer parte do mundo, não é algo fácil. Durante muito tempo, a Índia foi a grande fornecedora mundial de ossos para estudos médicos, até que em 1985 o governo proibiu esse tipo de exportação e o estoque global de ossadas entrou em colapso. Países ocidentais recorreram à China e ao Leste Europeu, mas essas regiões produziam relativamente poucas ossadas, e a qualidade era inferior. Mas agora, 23 anos depois da proibição, é fácil perceber que esse comércio nunca foi interrompido. Vendedores do mercado-negro de Bengala Ocidental continuam trabalhando, e usando o mesmo método de antes: roubar as sepulturas, limpar o cadáver e entregar os ossos a distribuidores que os vendem ao redor do mundo.
Trata-se de um ótimo negócio. Os crânios na minha frente, por exemplo, renderiam US$ 70 mil fora da Índia. O oficial segura o pano pelas pontas e faz uma trouxa com as provas. "Sabe, acho que nunca tinha visto tantos de uma vez só", ele diz. "Espero nunca ver de novo."

FÁBRICA DE OSSOS
Um violento sistema de baixa pressão sobre a Baía de Bengala ameaça despejar fortes chuvas na região. Estou dirigindo para a pequena vila de Purbasthali - distante 130 quilômetros de Kolkata, a capital do estado - onde a polícia tinha encontrado o carregamento de crânios. A 800 metros do local, meu carro alugado atola na lama, e sou obrigado a seguir a pé. Sapos do tamanho de uma luva de boxe pulam sobre o caminho.
Quando policiais chegaram aqui para fazer investigações em abril de 2007, sentiram o cheiro de carne podre a quase dois quilômetros de distância. Não foi difícil localizar a fonte. Lá dentro, pedaços de coluna vertebral pendiam do teto do galpão. Centenas de ossadas cobriam o chão. Autoridades confiscaram pilhas de ossos, latões de ácido hidrolítico e dois barris com algum químico cáustico que não conseguiram identificar.
Essa fábrica de ossos funcionou tranquilamente por mais de um século. Até que um dia dois funcionários beberam demais num bar e saíram falando que o trabalho deles era desenterrar corpos. Pessoas erradas ouviram, chamaram a polícia e eles foram levados para o posto policial, onde acabaram confessando. Disseram que um sujeito chamado Mukti Biswas era o responsável. As autoridades sabiam de quem se tratava. Em 2006, tinham-no prendido por chefiar um grupo que roubava sepulturas. Foi solto no dia seguinte, de acordo com jornais locais, "graças a suas ligações políticas". Após nova denúncia, os oficiais voltaram a mantê-lo em custódia, mas Mukti pagou a fiança e foi solto - e nunca mais se ouviu falar dele.
Depois de dez minutos andando pela lama, chego em Purbasthali e vejo uma lamparina a gás na frente de uma casa. Espio pela fresta da porta. Uma família de quatro pessoas, sentada no chão sujo, olha para mim.
"Alguém conhece Mukti Biswas?" - pergunto.
"O canalha ainda me deve dinheiro", responde Manoj Pal, um homem de vinte e poucos anos e bigode fininho. Ele conta que sua família trabalhou na fábrica de ossos por gerações, e se oferece para me mostrar a área. Saímos andando pela margem do Rio Bhagirathi até chegar ao local.
Quando a polícia chegou para investigar, em 2007, sentiu cheiro de carne podre a dois Quilômetros do local |
Hoje a fábrica é pouco mais que um barracão de bambu com plásticos no lugar do telhado - mas é só uma das doze fábricas de ossos que Pal diz conhecer. Tudo o que resta ali é o chão imundo com uma enorme tina de concreto enterrada no meio.
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