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Reportagens
 
A cidade das Armas
Uma visita a Darra Adam Khel, a maior fábrica de armamentos ilegais do Oriente Médio
Por Philipp Kohlhoefer e Carsten Stormer Fotos de Sebastian Lasse

Trabalhador em uma das 60 fábricas de armamentos do vilarejo: 6 mil pessoas envolvidas no negócio

Moeen Zackarias é fanático por armas. Sua nova obsessão é uma Glock 18, uma pistola rara e valiosa. Há anos que ele sonha com ela, mesmo já tendo em casa dois fuzis Kalashnikov e nove pistolas: entre elas as Glocks 17, 22 e 34; uma Colt 9mm; uma Walther PKK; uma Luger MK II e uma metralhadora Tommy HJ MP5, que fica escondida. “Se eu não descolar uma Glock 18 por aqui, onde mais vou arrumar?”, pergunta, enquanto carrega uma 9mm prateada com gravuras no cano. “Pode me chamar de Zack”, diz o paquistanês. Ele tem quarenta e poucos anos e veste uma jaqueta de couro, óculos de aviador dourados e botas de caubói vermelhas. Encostado na parede de sua casa, Zack coloca um carregador na arma. Uma vez por semana, ele pega o carro e vai até Darra Adam Khel. “É a vila mais cascagrossa da Ásia”, afirma, e sem desviar o olhar levanta a pistola acima da cabeça e dispara uma bala para o céu.

“Quando alguém disser para você sumir, obedeça na hora”, diz o guia. “Se eles tiverem que matar você, ninguém vai pagar por isso”

Darra Adam Khel, 68 quilômetros ao sul de Peshawar, fica no meio da região tribal autônoma de Pashtun, local onde acreditase que Osama Bin Laden e a cúpula Al-Qaeda se escondem. Não é à toa que o ramo dos armamentos sustenta 60 fábricas, 300 pequenas empresas e 400 negociantes. O setor dá emprego a seis mil pessoas, e outras dez mil dependem da manufatura e venda de armas. No vilarejo, centenas de lojas ao longo da rua principal exibem todos os tipos de armas: Fuzis-metralhadora M16 americanas, Kalashnikovs russos, G3 alemãs e escopetas italianas. Dependendo da demanda, há até lançadores de foguetes, bazucas, pequenos canhões e minas terrestres. Darra é provavelmente o único povoado do mundo que vive exclusivamente de armas.
Encontrar alguém como Zack por ali é fácil, Darra vive lotada de viciados por armas como ele. Chegar ao vilarejo, no entanto, é consideravelmente mais difícil. Estrangeiros só podem viajar para lá com permissão do governo autônomo tribal, mas os vistos não estão mais sendo emitidos. “É muito perigoso”, explica um oficial de turbante, no escritório de assuntos estrangeiros de Peshawar. “Se nós pegarmos você indo para lá, vamos jogá-lo numa de nossas cadeias. Para sua própria segurança”, ele acrescenta, sorrindo. Nós tínhamos nos apresentado como alemães fanáticos por pistolas querendo visitar a maior manufatura de armas do Paquistão, mas estrangeiros não podem mais entrar nesse território soberano desde que os EUA invadiram o Afeganistão. Cada gringo pode ser, aos olhos dos oficiais, um agente da CIA, que eles seriam forçados a seqüestrar ou matar.

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