Crime, castigo e maquiagem
Muita mulher junta quase sempre é problema. Imagine então o que rola dentro de um cubículo atulhado de assassinas, ladras e traficantes. No embalo da CPI do sistema carcerário, que tem denunciado condições subumanas nas cadeias, Maxim mergulhou no mundo violento e claustrofóbico dos presídios femininos. Você se acha um cara macho? Espere para ver o que essas meninas suportam
Por: Luiza Fernandes Fotos: Luiz Alves/Sefot/CD Ilustrações: Roseli Fernandes
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| Castigo na cela individual: sangue nas paredes e buraco para necessidades |
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| (No sentido horário) Três flagrantes de presas em Belém e uma cela em Florianópolis: dor e desesperança |
Ana Paula acorda sobressaltada, às cinco da manhã, com o barulho de uma porta sendo arrombada. É a polícia, invadindo sua casa para prendê-la por posse de 51 pedras de crack. Ela nega tudo. Sem demora é algemada, recebe chutes e cabeçadas. Os policiais só param quando grita que está grávida. O pai, um assaltante. Colocada na viatura, é levada para uma delegacia, a porta de entrada do sistema carcerário. Depois (sabe-se lá de quanto tempo), será julgada e transferida para um presídio. Durante cinco semanas, Maxim teve acesso a três prisões femininas de São Paulo, onde ouviu detentas, guardas, assistentes sociais e ex-presidiárias. Conhecemos as terríveis “C.I’s”, ou celas individuais. Recebemos cartas das presas, o estatuto do PCC e fotos exclusivas, feitas para o relatório da CPI do sistema carcerário. Tentamos também consultar fontes oficiais, por duas vezes, através da Secretaria de Administração Prisional, que não quis colaborar com a reportagem. Respire fundo e acompanhe.
Delegacia: As boas-vindas do sistema
“Quando fui presa eu preferia estar drogada, mas como estava limpa pude ‘curtir’ o medo durante todo o tempo. Pela minha cabeça passava o que ia acontecer comigo, se eu ia voltar logo pra minha casa ou se ia apanhar muito. Eu não tinha ninguém, nem para quem pedir socorro. Só me sentia intimidada o tempo todo. Mil coisas passavam pela minha cabeça e ao mesmo tempo não conseguia pensar em nada. Tinha medo do que estava por vir.”
Ana Paula, presa por tráfico de drogas, sem família e condenada a cinco anos.
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| Superlotação numa cadeia do Rio de Janeiro |
Deixando de lado possíveis agressões no momento da captura e no traslado, a entrada da presa no sistema começa com atividades burocráticas, como a elaboração da ficha criminal e o exame de corpo de delito. Mas a monotonia acaba bem rápido. O próximo passo, a revista, dará uma idéia mais clara para a mulher de como será sua vida. Primeiro ela é totalmente despida na frente das guardas. Então deve abaixar a cabeça, balançar os cabelos, agachar três vezes com os joelhos abertos e assoprar o peito da mão com força, para que a polícia tenha certeza de que não está levando drogas ou qualquer outra coisa dentro da vagina ou do ânus. Na etapa seguinte, o medo se transforma em realidade. A mulher é encaminhada para uma cela. “Tem água nova no Xis”, gritam as veteranas. A frase tem vários significados; o mais leve é que vai ter de aumentar a água no feijão do xilindró. Os mais pesados serão descobertos logo na primeira noite.
“Fui levada para a delegacia porque fui pega em flagrante trazendo drogas do Paraguai para o Brasil. Eu tinha me arrumado toda: unhas feitas, cabelos escovados e roupa bonita. Eles me pegaram e me jogaram no camburão. Comecei a ficar apavorada quando os policias disseram que minhas unhas iam se acabar no chão de cimento da cela e que como eu era bonitinha ia arrumar um marido rapidinho lá dentro. Tavam falando de um dos sapatões, que ficam esperando alguém nova para dominar.”
Antônia, 52 anos, presa por tráfico internacional de drogas, sem família e condenada a cinco anos.
Sensação de primeiro dia
Quando a porta da cela de uma “comarca” (gíria para delegacia) é aberta, a novata encontra outras 20 mulheres, com as quais irá dividir um espaço projetado para seis pessoas – o Brasil tem 26 mil presas, número que dobrou entre 2002 e 2007, gerando um déficit de 12 mil vagas. O lugar é equipado com seis “jegas”, uma “boqueta” e um ”boi”. Se você ainda não passou uma temporada enjaulado, tome nota: estamos falando de seis camas de concreto com 50 centímetros de largura, um pequeno orifício de ventilação no alto de uma das paredes e um buraco cavado no chão onde se faz as necessidades. Além dessas amenidades, há dois canos de água fria sobre um pedaço de cimento; o mais alto serve de chuveiro, o rente ao chão é usado como pia.
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| Comida das dententas no Presídio de Belém |
“Quando a água nova entra no Xis, ela é obrigada a tirar os sapatos. Ela tem que respeitar a gente, porque não sabemos onde os sapatos dela pisaram. Ela pode estar trazendo muita doença para dentro da cela. Se não fizer isso, a barraqueira [a mulher mais velha da cela] dá um grito e manda ela tirar o sapato a qualquer custo. Até aí o clima não está pesado pra novata. Levamos ela pro chuveiro e se precisar damos roupas e toalhas pra ela. O esquema é tentar viver em harmonia. Mas o Xis é uma bomba pronta pra explodir. Imagina o que são umas 20 mulheres obrigadas a conviver todo dia, das cinco da tarde até as oito da manhã.”
Camila, 32, presa por tráfico de drogas e contravenção, seis anos de pena.
Camila tem razão – e às vezes a explosão acontece logo de cara. Quando uma novata comete um crime considerado inaceitável, as guardas fazem questão de alardear o fato no momento em que ela é jogada na cela. A nova presa então descobre outra lei, que ali vale mais que qualquer código penal – a lei do cão. Com um olhar vago e visivelmente perturbado, Cíntia conta como foi recepcionada no Xis:
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